Sejam símplices como as pombas e sagazes como as serpentes!
Evangelho de Mateus 24:1-35
(Cf. Evangelho de Marcos 13:1-31; Lucas 21:5-37)
“Cuidado, que ninguém vos engane.”
Os blocos de pedra intensamente brancos e talhados a golpes de martelo de bronze, pesando de uma a duas toneladas, extraídas das pedreiras no centro de Jerusalém e do bairro de Har Hotzvim, serviram para a edificação do templo judaico planejado por Herodes e iniciada sua construção antes do nascimento de Jesus.[1]
A brancura do calcário turoniano[2] na construção daquele monumental empreendimento do mundo antigo era tão intensa que ao descrever as colunas do Templo o historiador romano-judeu Flávio Josefo enganou-se pensando ser mármore.
Não foi a superestrutura indigna de tais fundações. Os pórticos, todos em fileiras duplas, eram sustentados por colunas de vinte e cinco côvados de altura – cada um dos singulares blocos era do mais puro e branco mármore – e revestidos com painéis de cedro. A grandeza destas colunas e seu excelente brilho e fino ajustamento apresentava um espetáculo impressionante, sem qualquer adorno fortuito de pintura ou escultura. Os pórticos eram de trinta côvados de largura e o percurso completo deles abrangia a torre de Antonia, medindo seis estádios. O pátio aberto foi de ponta a ponta pavimentado com pedras de todo tipo
(BJ 5. 184-192).
O corte e a extração seguiam a técnica milenar, desde os construtores egípcios, e faziam-se fendas na extensão e largura desejadas na rocha e, depois, batia-se sobre cunhas de ferro ou bronze, cinzéis de dez centímetros, separando o bloco em um perfeito quadrilátero.
Segundo os historiadores, a maioria dos blocos tinha dois metros e meio de comprimento por um metro e vinte de largura e espessura de quarenta centímetros, chegando a pesar até cinquenta toneladas.[1]
Toda a engenharia da época para a obtenção do material e os esforços para o transporte dos blocos e a sobreposição um a um numa extensão de cerca de 300 metros por 200 metros impressionam até hoje.
Henri Daniel-Rops dá uma descrição importante sobre o que uma pessoa enxergava ao passar pelos vários portões cortados no muro imenso levantado com estes blocos de pedra:
Uma vez atravessadas as portas entrava-se em um imenso pátio retangular, o atual pátio da Mesquita de Omar, que media nada menos de 500 cúbitos no lado mais longo, ou seja, quase 230 metros; este era o pátio dos gentios.[1]
O mundaréu de gente se entrelaçando, o grupo dos fariseus caminhando em destaque, com seus mantos e estolas brancas, o povo humilde vestindo túnicas de algodão, alguns com mais posses, em trajes de linho, os sacerdotes que vestiam vermelho para o sacrifício, as cores, os cheiros, os barulhos que a qualquer tempo emitiam os bois, as cabras e ovelhas mugindo e balindo, pombas e rolas arrulhando, gente gritando seus preços de ocasião, e os negócios de troca de moedas nas mesas de câmbio, naquele burburinho intenso que fazia aumentar a zoada, definitivamente não era uma Casa de Oração reivindicada pelo Senhor Jesus.
Quando nosso Senhor visitou o templo em sua fase adulta por três anos seguidos na Páscoa, o que ele viu e ouviu escancarava desmedida irreverência.
“Em meio a esse ambiente de feira ficava o santuário propriamente dito, correndo de leste para oeste e situado vários metros acima do pátio dos gentios. Um plano excelente se achava por trás disso, a ideia de um progresso ascendente, uma subida para aquilo que é mais santo. Havia diversos níveis e para passar de um para o outro era necessário subir uma escada: o nível mais alto de todos era o Lugar Santíssimo.”. (Daniel-Rops, op. cit., p. 235).
A sequência dos acontecimentos no último ano e na última semana do ministério de Jesus é esta: Nosso Senhor chega triunfalmente montado em um jumentinho e chora por Jerusalém, em seguida entra pela Porta Dourada, atravessa o pátio e revira mesas e expulsa os mercadores e cambistas; ao sair do local do templo, seus discípulos, talvez querendo agradá-lo ou melhorar o clima, disseram: “Mestre! Que pedras, que construções! Mas Jesus lhe disse: Vês estas grandes construções? Não ficará pedra sobre pedra, que não seja derribada.”.
Jesus tinha criado um clima claro de enfrentamento à incredulidade, à superficialidade religiosa, à fé dependente de imagens e baseada em aparências. Justamente estas que as autoridades religiosas queriam ter para preservar o poder.
Deve ter ficado um clima emocional desafiador para os discípulos. Talvez estivessem mudos, pensando por que razão Jesus estava tão irado, dramático e negativo. Os evangelhos não narram os acontecimentos que se sucederam desta declaração de Jesus até o momento que se acomodaram sentados no monte das Oliveiras. Imaginamos que foram minutos de muitas dúvidas, de apreensão. Tanto é assim que somente Pedro, Tiago, João e André se atreveram a perguntar a Jesus quando ocorreria tamanha calamidade.
Jesus assentou-se no monte das oliveiras e dali via as construções, o Templo, o entra-e-sai das pessoas, quando é cercado pela curiosidade dos discípulos, que lhe perguntam: “No monte das Oliveiras, defronte do templo, achava-se Jesus assentado, quando Pedro, Tiago, João e André lhe perguntaram em particular: Dize-nos quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá quando todas elas estiverem para cumprir-se.” – Marcos 13:3-4.
Antes de dar os detalhes Jesus os advertiu: “Cuidado. Não sejam enganados por ninguém.”.
Nosso Senhor inicia a revelação dos últimos acontecimentos no mundo com uma advertência sobre a cautela que devemos cultivar em nossa percepção das realizações humanas, dos sucessos, das pessoas, dos fenômenos físicos do planeta, dos governos e autoridades mundiais, e dos falsos líderes religiosos: “Cuidado…” ou “Vede que ninguém vos engane”. Uma chamada à consciência, à atenção!
O estado de atenção começava naquele momento, olhando diretamente para a edificação do Templo, que estava à frente deles.
Eles não poderiam se enganar com aquilo que estava à frente deles.
A beleza e a grandiosidade daquelas construções, que impressionaram a descrição do historiador contemporâneo deles Flávio Josefo, era um enorme engano, uma aparência de sucesso e capacidade humanas que dava às pessoas uma falsa noção da realidade. Os discípulos caíram no encanto de tudo aquilo e sentiram o peso negativo da revelação de Jesus.
Nosso Senhor enfatizou: os últimos tempos serão envoltos de ENGANO!
Estar atento aos sinais dos últimos tempos, vigiando as ocorrências escatológicas de mudança climática, de conflitos nacionais, e manter-se crendo no que Jesus ensinou ou perseverar na fé em Cristo, são as reações que nosso Senhor nos orienta a fazer.
O engano começa pelas aparências.
Esta constatação é fundamental!
Há uma manipulação das aparências por meio do prazer estético.
“Que pedras, que construções!” – Mc. 13:1, disseram impressionados os discípulos.
O Messias prometido não surgiu com a aparência desejada justamente para evitar a manipulação diabólica de sua figura, como está no texto do profeta Isaías, “…não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse.”. Isaías 53:2.
Que não confundamos a manipulação pelas aparências com o legítimo prazer estético e com nosso dever de cuidar da vida, do corpo, de nossas coisas.
Trata-se de uma chamada à consciência!
Quem produz o engano é satanás que, além de “pai da mentira” é “homicida”, como revelou Jesus.
“Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.” – João 8:44.
Jesus ensinou seus discípulos e nos ensina a nós hoje que nos últimos tempos teremos um ambiente mundial de engano e de mentira.
O cenário descrito por Jesus é de intensa aparição de falsos cristos e falsos profetas, falsas lideranças (cristos) e falsas doutrinas (profetas).
Reconheçamos! Não é fácil diferenciar o falso do verdadeiro!
Jesus foi claro a eles sobre o engano: observem, não se assustem, perseverem, vigiem e orem.
SEJAMOS CAUTELOSOS!
[1] Cf. www.revistagalileu.globo.com. Pedreira de 2 mil anos datada da época do rei bíblico é achada em Israel. Consulta em: 06 de fevereiro de 2025.
[2] Cf. www.biblicalarchaeology.org.com. The Stones of Herod’s Temple Reveal Temple Mount History.Consulta em: 06 de fevereiro de 2025. Cf. www.wikipaedia.com. Pedra de Jerusalém.
[1] Cf. www.aventuranahistoria.com.br – Enorme pedreira datada da época do rei Herodes é achada em Israel. Consulta em: 04 de fevereiro de 2025; www.timesofisrael.com .
[1] DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 235.

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