Entrega o teu caminho ao Senhor!

Descansa no Senhor!

 

Evangelho de João 1:43-51

“Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.”

 

Os evangelhos nos informam, em poucas e esparsas ocorrências, que Jesus detinha, enquanto ser humano na terra, a capacidade da antevisão do comportamento das pessoas, do que se lhes passava na mente e no coração, e de acontecimentos passados, presentes e futuros.

Jesus sabia o que as pessoas pensavam a seu respeito, sabia as críticas que lhe faziam no íntimo, as perguntas que subiam ao coração humano e tudo que aconteceria com Ele mesmo, com Israel, com Jerusalém e com o mundo.

Isso nos leva ao encontro de Jesus com Natanael. Logo que o Senhor o vê diz quem ele é no íntimo: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!”. E depois explica porque lhe disse isto: “Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira.”.

 A narrativa concisa do evangelista João sobre o encontro de Natanael com Jesus não nos permite, à primeira vista, entender a reação tão visceral dele às palavras proferidas por Jesus a seu respeito: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!”.

O que aconteceu com Natanael debaixo da figueira?

Henri Daniel-Rops em seu livro A vida diária nos tempos de Jesus dá-nos uma noção valiosa da importância da figueira naquela região, de sua aparência e utilização pelos israelitas ao dizer:

“A figueira quase se igualava à oliveira em importância…Ela é mencionada mais de cinquenta vezes na Bíblia e, como a oliveira, sempre cresceu na Palestina. Era fácil podá-la em forma de guarda-chuva para dar sombra junto às casas ou nos campos. Sua folhagem espessa favorecia a meditação – uma espécie de meditação como aquela de que a voz do Senhor despertou Natanael. Estar ‘à sobra da figueira’ significava estar contente e à vontade. Essa árvore excelente produzia frutos duas vezes por ano, o figo do outono, que era a colheita principal e que crescia nos brotos do ano e os figos imensos deliciosos, os primeiros, que segundo o Talmude estavam maduros no dia seguinte à Páscoa.” (p. 22).

É de se pensar que o israelita dos tempos de Jesus se achegava para debaixo da figueira procurando sua sombra e seus frutos. Um pouco para relaxar e pensar na vida e um pouco para se alimentar. O próprio Jesus procurou figos para comer ao passar por uma perto de Jerusalém. Mas a revelação que Jesus fez a Natanael sobre si mesmo debaixo da figueira produziu uma reação de espanto e de clarividência, a ponto de chamá-lo de Messias e isso não faz sentido se ele apenas estivesse na figueira comendo de seus frutos ou mesmo se protegendo do calor do sol. O que nos leva a pensar que Natanael buscou refúgio sob a figueira para pensar sobre sua vida, seu mundo, suas expectativas a respeito da vinda do Messias, e o que se falava nas ruas a respeito de Jesus, de seus milagres, de sua pregação. Isto é, como se encaixava João Batista, suas roupas esquisitas, sua comida estranha, sua pregação e, agora, Jesus, de Nazaré da Galiléia, fazendo vários milagres!

Essas conclusões se coadunam com as explicações de seu irmão Filipe que lhe disse: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno.”. Ora, se Filipe disse que acharam é porque estavam em busca.

E o chamado Messianismo ou a forte convicção religiosa, que existia mais entre a população do que entre os religiosos, da chegada iminente do poderoso Filho de Davi, era uma realidade naquela época. Tanto é assim que o historiador judeu-romano Flávio Josefo afirmou em suas Guerras Judaicas: “O que os excitou à guerra contra Roma foi uma profecia ambígua, encontrada nas Escrituras Sagradas, a qual anunciava que um homem da terra judaica dominaria o universo.”.

Natanael era um israelita honesto, como o mestre Nicodemos, e queria entender o que estava acontecendo. Na literatura intertestamentária, principalmente no apócrifo Salmos de Salomão, 48 a.C., fala de um Messias de Davi, de Levi, de José e de Efraim. Os rolos do Mar Morto mencionam um Messias de Arão e de Israel. Nesta confusão de esperanças messiânicas Natanael poderia ter pensado debaixo da figueira.

Ele concordava com as explicações farisaicas e dos sacerdotes sobre o lugar de origem do Messias, por isso reagiu ao convite de Filipe do mesmo jeito que os sacerdotes: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?”. Foi isto que os principais sacerdotes justificaram ao mestre da lei Nicodemus: “Dar-se-á o caso de que também tu és da Galiléia? Examina e verás que da Galiléia não se levanta profeta.”. (Jo. 7:52).

O que de fato aconteceu a Natanael debaixo da figueira? Muito provavelmente, ele buscava explicações honestas diante do alvoroço que havia em torno dos últimos acontecimentos subsequentes, isto é, João Batista, batismo de arrependimento, e os milagres que Jesus fazia. Por isso Jesus o qualificou de um israelita sem engano, de coração sincero, que estava disposto a buscar e achar a verdade. “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!”. Isto é, engano, duas caras, sentimentos divididos. Por outro lado, sincero, honesto, desejoso de saber a verdade e não orgulhoso!

A expressão de Jesus: “Eu te vi…”, significa que Jesus via e vê e está ao lado de quem verdadeiramente tem mente e coração disposto a buscar e encontrar a verdade religiosa da fé cristã.

Há outros registros nos evangelhos que corroboram esta reflexão. Vejamos algumas a seguir.

Ele anteviu a Pedro a forte tentação a que seria submetido quando a pressão para o negar chegaria. “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos.”. (Lc. 22:31-32).

Ele chorou ao ver Jerusalém quando chegava montado em um jumento e dizia chorando: “Ah! Se conheceras por ti mesma, ainda hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos. Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade da tua visitação.”. (Lc. 19:41-44)

Esta, talvez, seja uma das razões pelas quais nosso Senhor não confiasse nas pessoas que diziam crer nele: “Estando ele em Jerusalém, durante a Festa da Páscoa, muitos, vendo os sinais que ele fazia, creram no seu nome; mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos. E não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana.”. (Jo. 2:23-25).

Sua antevisão esclarece, em parte, o processo de escolha dos apóstolos, inclusive Judas, porque Jesus sabia quem ele era e como e porque o trairia.

Foi esta antevisão, inclusive do passado e do presente, que o fez revelar-se como Messias para a mulher samaritana junto ao poço de Jacó.

“Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e vem cá; ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido. Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido: isto disseste com verdade.”.

Pedro após o encontro com o Jesus ressurrecto chegou, enfim, à conclusão de que Jesus tinha plena noção das pessoas, dos eventos que passavam ao seu redor. Pedro, então, entristecido pela insistência da pergunta de Jesus, Tu me amas? responde: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. E Jesus, então, lhe revela o futuro de sua vida: “…quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.” (Jo. 21:15-19).

Esta constatação bíblica nos permite compreender também um pouco mais a angústia do Senhor quando orava nos momentos que precederam sua prisão, julgamento e crucificação. Ele sabia exatamente o que lhe aconteceria, não somente pelo que as Escrituras diziam a seu respeito, mas porque sua capacidade de antevisão dos eventos futuros lhe trazia muito claro a sua consciência tudo que de fato aconteceria de ruim com Ele. “E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra.” (Lc. 22:44).

Nosso Senhor, portanto, sabe quem somos, qual será o nosso futuro, quais as lutas espirituais que travamos e que travaremos. Torna-se de maior relevância o que Jesus disse aos seus discípulos e nos diz hoje: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou: não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.” (Jo. 14:27).

JESUS NOS CONHECE DE LONGE E SABE QUANDO SOMOS SINCEROS!

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