Em que devemos prestar atenção e nos dedicar nesta vida?

Evangelho de Marcos 14:27-31

(Cf. Evangelho de Mateus 26-31-35; de Lucas 22:31-34; de João 13:36-38)

“Disse-lhes Jesus: ‘Vocês todos me abandonarão.

Pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas.”.

“Pedro declarou: ‘Ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei.”.

“Mas Pedro insistia ainda mais: ‘Mesmo que seja preciso que eu morra contigo, nunca te negarei’.

E todos os outros disseram o mesmo.”

 

O ser humano é pródigo em estabelecer relações superficiais com seu semelhante, reservando a sinceridade para um círculo muito estreito de sua intimidade. As manifestações de urbanidade, como o sorriso, as mensagens positivas, os elogios, são formas utilizadas nas duas situações. No entanto, o que vai no mais íntimo dos corações e mentes é plenamente desconhecido e administrado. A Bíblia desde há muito afirma: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto.”. (Jeremias 17:9).

Estudiosos da psiquê no século XIX, como Freud, Lacan, e Jung, perceberam que o ser humano representava uma aparência diferente, vestibular, sobre o que ocorria, de fato, em sua mente e em sua personalidade, mas priorizaram a solução centrada da racionalidade, desprezando o diagnóstico bíblico do pecado.

Na relação com Deus isto não prospera porque, além de saber o que está na profundidade do nosso caráter, exige confissão e fé em sua Salvação.

Nem sempre sabemos a que profundidade podemos chegar nas más intenções. Juramos a nós mesmos que seremos fiéis a Cristo, à nossa fé, à Bíblia, à Igreja, mas não temos ideia da grande luta que envolve o pecado em nossa vida, as tentações do diabo e seus demônios, o que nos surpreende quando confrontados com nossas fragilidades de caráter, de compromisso moral, e mais ainda, com a Bíblia.

Jesus disse aqui aos apóstolos, em outras palavras: “-Vejam a que ponto vocês serão capazes de me negar!”. Os apóstolos tinham uma visão tímida da luta espiritual e vivencial a que estavam sujeitos. Por isso Jesus insistiu na recomendação: vigiai e orai.

Não são apenas aos apóstolos a quem Jesus dirigiu estas advertências. Foi a mim e a você, caro leitor! Há uma luta espiritual que se espalha por todas as esferas de nossa vida comunitária e mundial. E o que podemos fazer para nos preparar?

Primeiramente, devemos nos atentar para o que as Escrituras nos advertem a respeito de nós mesmos como seres humanos. Vigiar é, primeiramente, ler e estudar sempre as Escrituras! Ver nelas a respeito de nós mesmos!

A revelação da verdadeira motivação dos discípulos foi feita por Jesus ao citar um texto profético dirigido ao comportamento dos discípulos nesta hora difícil de sua vida e que seria cumprido independentemente da vontade humana: “Vocês todos me abandonarão”.

Note que nas últimas horas antes de sua prisão a mensagem de Jesus aos apóstolos ficou cada vez mais pesada: “Vão me prender e eu vou morrer crucificado!”; “Esta é a última vez que beberão vinho na Páscoa comigo, depois só na Páscoa dos Céus”; “-Um de vocês me trairá!”; “-Vocês todos me abandonarão.”.

Esta forte advertência aos seus apóstolos escancarou a hipocrisia, a dissimulação, o fingimento do coração de cada um, a começar por Pedro. Após a ceia da Páscoa juntos, recebiam agora a declaração de Jesus de quem realmente eram.

É raro, talvez inexistente, haver um ser humano que administre bem o momento em que é desmascarado em suas verdadeiras intenções.

Na família somos avaliados cotidianamente e é muito difícil quando alguém da família revela uma falta nossa. Reagimos com desculpas ou até mesmo fugimos daquele ambiente fiscalizador e avaliador. Não é diferente no trabalho, no esporte, na igreja, em qualquer ambiente em que as pessoas se relacionem umas com as outras: sempre haverá uma denúncia, um confronto da verdade com a mentira.

Foi esta revelação das verdadeiras motivações que Jesus deu ao jovem judeu rico que o procurou todo festivo e disse que estava disposto a fazer qualquer coisa para entrar no reino de Deus. Chegou elogiando e logo Jesus foi tirando sua máscara. “Por que me chamas bom? Somente Deus é bom!”.  Qual era a verdadeira motivação do jovem perante Jesus? Ele o reconhecia como o Cristo? “Sua disposição espiritual é sincera? Então dê o que é mais precioso para você em troca do Reino de Deus e me siga.”. Foi neste momento que uma luz entrou em sua mente e revelou a verdade de sua motivação.

A mensagem de Jesus aos seus apóstolos nesta hora foi dura, traumática: “Vocês todos me abandonarão.”. Era uma profecia; era o que estava nas Escrituras; era a revelação do mau caráter que cada um dos apóstolos tinha. Reconhecer quem realmente eram colocava por terra todas as boas intenções que tinham para com Jesus.

A Bíblia revela quem verdadeiramente somos. Mostra como dizemos muita coisa da “boca-para-fora”, em como não cumprimos com nosso votos e promessas; como abandonamos nossos compromissos, nossos parentes, nossos amigos, nossa fé. Escondemos nossas motivações mais profundas e autênticas. Somos terrivelmente pecadores!

A partir deste ponto podemos dar maior atenção à mensagem que Jesus deu como advertência aos apóstolos, sobretudo a Pedro, Tiago e João: “Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” Mc. 14:38.

Outra atitude positiva que precisamos assumir diariamente frente a este quadro da fragilidade humana é pensar com cautela a respeito de nós mesmos, de nossas capacidades físicas, emocionais e psíquicas, para evitarmos cair em ciladas espirituais e em desgraças na vida diária. Temos aqui outra aspecto de nossa existência que precisa ser vigiada e banhada com oração.

As atitudes e palavras do apóstolo Pedro, em primeiro lugar, e dos demais apóstolos em sequência, nos mostram como somos volúveis, inconstantes, instáveis, como saímos de uma posição corajosa para uma covarde, hesitante, indecisa.

“Ainda que todos te abandonem, eu não te abandonarei.”; “Mas Pedro insistia ainda mais: ‘Mesmo que seja preciso que eu morra contigo, nunca te negarei’. E todos os outros disseram o mesmo.”.

Assumir posição ou compromissos antes de saber a real dimensão dos desafios que nos apresentam revela como a “…carne é fraca…”. Isto é, como esta é inconstante e sujeita às intermitências que surgem a cada momento!

É como se Jesus dissesse a Pedro: “- Pedro você não tem a menor ideia do que ocorrerá daqui para a frente!”; a mesma situação ocorreu com Tiago e João quando eles e sua mãe pediram para se sentar ao lado esquerdo e direito de Jesus quando voltasse em sua Glória. “-Vocês não sabem o que estão me pedindo.”.

Por fim, precisamos vigiar o nosso entorno, o que o mundo que jaz no maligno está promovendo. Todo o cuidado é pouco.

Jesus sabia o que lhe estava destinado, mas os apóstolos, mesmo com toda a advertência repetida e prévia de Jesus, não percebiam a evolução política e religiosa. Comeram a Páscoa, cantaram um hino, saíram com Jesus, mas ainda não vislumbravam as dimensões espirituais, políticas e religiosas desencadeadas naquelas horas, conforme as Escrituras.

Em segundos, assim que Jesus terminou de orar e os advertir, chegaram Judas, os soldados do Templo, outras pessoas, uma multidão, na madrugada, prenderam Jesus e os discípulos ficaram sem rumo. Não se deram conta da dimensão do movimento político e religioso contra Jesus.

Nós hoje, também, não temos a menor ideia do que está para acontecer de desafios à nossa espiritualidade, à nossa vida como cidadãos, como seres humanos. Precisamos nos vigiar; deter nossos arroubos de coragem e vivermos com prudência, como disse Jesus: “- Sejam símplices como as pombas e sagazes como as serpentes.”.

Vigiar é estar atento e pronto para o que está acontecendo no mundo ao derredor e conosco em particular. Orar é importante, mas ter a mente ativa para não ser pego de surpresa é importante, pois podemos evitar as ciladas deste mundo controlado por satanás.

Jesus conhecia os lugares de maior incredulidade por onde passou, conhecia as pessoas que o buscavam, conhecia a sagacidade política de Herodes, estava perfeitamente consciente de quem era Pilatos, do relativo poder terreno que detinha, das intenções dos religiosos para consigo e, principalmente, das artimanhas satânicas, como a que utilizou Pedro para o dissuadir do caminho da cruz. Enfim, vigiava.

E hoje, o que está acontecendo com este mundo? Para onde caminhamos? De que forma é desafiada a nossa fé?

Jesus nos advertiu sobre fenômenos políticos, econômicos e ambientais que chegariam com muita força e voz, anunciando que sua segunda vinda estaria próxima. É tempo de vigiar, prestar atenção, orar e descansar nas mãos do Senhor!

Vigiar é olhar para tudo isto, para as notícias diárias, para as Escrituras, e preparar-se em oração diária, derramando a alma diante do Deus Pai Altíssimo!

SEMPRE É TEMPO DE VIGIAR E ORAR!

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